Guia completo · Síndromes Venosas Abdominais

Síndrome de May-Thurner (Síndrome de Cockett): por que só a perna esquerda incha

A síndrome de May-Thurner é a compressão da veia ilíaca comum esquerda pela artéria ilíaca comum direita, que cruza sobre ela e a aperta contra a coluna. Quando essa compressão ainda não formou coágulo, chamamos de síndrome de May-Thurner. Quando ela já trombosou, ou deixou uma sequela depois de uma trombose, o mesmo quadro costuma ser chamado de síndrome de Cockett — é a mesma anatomia, em dois momentos clínicos diferentes. Na prática, os dois nomes também circulam como sinônimos em parte da literatura, e é comum ver um citado entre parênteses do outro. O sinal mais característico é o inchaço desproporcional da perna esquerda, e o diagnóstico é feito por imagem — com destaque para o ultrassom intravascular (IVUS), que mostra a compressão por dentro da veia. O tratamento, quando indicado, é o stent venoso: minimamente invasivo, por punção, sem cortes.

Revisado por Prof. Dr. Igor Rafael Sincos — Médico | CRM-SP 117.876 | Cirurgia Vascular RQE 126.825 | Cirurgia Endovascular RQE 132.643 · Publicado e atualizado em 2 de setembro de 2026

Flebografia mostrando o estreitamento da veia ilíaca comum esquerda no cruzamento com a artéria ilíaca direita, com colaterais transpélvicas
Flebografia real, do acervo próprio da clínica: a veia ilíaca comum esquerda afilada no ponto de cruzamento, com colaterais cruzando a linha média — a assinatura angiográfica da compressão.

O que é a síndrome de May-Thurner (ou síndrome de Cockett)?

A artéria ilíaca comum direita, no seu trajeto normal, passa por cima da veia ilíaca comum esquerda e a comprime contra a coluna vertebral. Esse cruzamento é uma variação anatômica presente em boa parte da população — a compressão em si não é rara. O problema aparece quando essa compressão repetida, ao longo dos anos, machuca a parede interna da veia e forma uma cicatriz fibrosa (um "esporão") que estreita ainda mais a passagem do sangue.

Chamamos esse quadro de síndrome de May-Thurner quando a compressão ainda não formou coágulo. Quando a veia já trombosou — ou ficou com sequela depois de uma trombose venosa profunda —, o mesmo mecanismo costuma ser chamado de síndrome de Cockett. É a mesma anatomia de base, em dois estados clínicos diferentes; em parte da literatura internacional, os dois nomes também aparecem como sinônimos um do outro. Tratar a compressão antes que ela trombose é exatamente o que evita a evolução de uma para a outra.

Os nomes vêm de quem descreveu o mecanismo: May e Thurner, em 1957, em um estudo com 430 dissecções de cadáver, encontraram o "esporão" fibroso característico em 22% dos casos. Cockett e Thomas, em 1965, correlacionaram essa mesma compressão com quadros clínicos de trombose venosa profunda iliofemoral.

Por que só a perna esquerda incha?

O cruzamento entre a artéria ilíaca direita e a veia ilíaca esquerda acontece de um lado só — por isso o inchaço característico dessa síndrome é praticamente sempre unilateral, na perna esquerda. A perna direita, sem esse ponto de compressão, costuma seguir normal, o que ajuda a diferenciar esse quadro de causas mais gerais de inchaço nas duas pernas.

Reconstrução 3D de angiotomografia mostrando a artéria ilíaca comum direita cruzando sobre a veia ilíaca comum esquerda, na frente da coluna
Reconstrução 3D de angiotomografia (acervo próprio): a artéria ilíaca direita cruzando sobre o trajeto da veia ilíaca esquerda, contra a coluna vertebral.

Quais são os sintomas?

Nem toda compressão dá sintoma. Quando dá, os mais comuns são:

  • Inchaço desproporcional na perna esquerda, que piora ao longo do dia ou ao ficar muito tempo em pé ou sentado;
  • Peso, cansaço ou dor na perna esquerda;
  • Varizes atípicas ou que aparecem predominantemente à esquerda;
  • Trombose venosa profunda iliofemoral esquerda — às vezes é o primeiro sinal, especialmente em mulheres jovens sem outro fator de risco evidente;
  • Sinais de síndrome pós-trombótica — inchaço crônico, alterações de pele e, em casos mais avançados, úlceras — em quem já teve uma trombose nessa região.

Toda compressão precisa de tratamento?

Não. Estudos de imagem em pessoas completamente assintomáticas encontram algum grau de compressão da veia ilíaca esquerda em mais de um terço dos casos — a compressão anatômica, isoladamente, é comum e não define doença. O que indica investigação e, se necessário, tratamento é a presença de sintomas, de trombose ou de sequela pós-trombótica relevante — não o achado isolado num exame de imagem feito por outro motivo.

Como é feito o diagnóstico?

A investigação costuma começar pelo ultrassom Doppler venoso, que avalia o fluxo e pode sugerir a compressão. Para confirmar e planejar o tratamento, usamos angiotomografia ou angiorressonância, que mostram a anatomia do cruzamento arteriovenoso com mais detalhe.

Quando o cateterismo é indicado, o exame mais preciso é o ultrassom intravascular (IVUS): uma sonda percorre a veia por dentro e mede a compressão diretamente, em corte transversal — algo que nenhum exame externo consegue fazer com a mesma exatidão. É esse exame que confirma o grau da compressão e orienta o tamanho do stent, quando o tratamento é indicado.

Como é o tratamento com stent venoso?

O stent venoso é hoje o tratamento mais usado para a compressão sintomática. Por uma punção — geralmente na veia da perna ou atrás do joelho —, um cateter leva o stent até o ponto de compressão. Ao ser liberado, ele se expande e passa a sustentar a parede da veia por dentro, restaurando a passagem do sangue no local onde a artéria comprimia contra a coluna.

É um procedimento minimamente invasivo, sem cortes, geralmente realizado com sedação e anestesia local. Quando há trombose associada, o tratamento pode incluir também a remoção do coágulo antes do implante do stent, e anticoagulação por um período definido conforme o caso.

Recuperação e acompanhamento

A recuperação do implante de stent venoso costuma ser rápida, com retorno às atividades habituais em poucos dias. O acompanhamento no pós-operatório inclui ultrassom para confirmar que o stent permanece aberto e funcionando, e a duração da anticoagulação — quando indicada — é definida caso a caso, conforme o histórico de trombose e os fatores de risco de cada paciente.

Quando procurar um cirurgião vascular?

Vale investigar quando há inchaço persistente e desproporcional na perna esquerda, sem outra explicação clara, especialmente se surgiu na gravidez, no pós-parto ou depois de longos períodos de imobilidade. Também vale investigar após uma trombose venosa profunda iliofemoral esquerda — é um dos cenários em que essa síndrome mais aparece, e identificá-la muda a conduta de tratamento e prevenção de novos episódios.

Tratamento da síndrome de May-Thurner e Cockett em São Paulo

A Clínica Endovascular São Paulo realiza o diagnóstico por imagem — incluindo ultrassom intravascular (IVUS) — e o tratamento com stent venoso da síndrome de May-Thurner e da síndrome de Cockett, com equipe de cirurgiões vasculares titulados. O planejamento é sempre individualizado, com discussão transparente das opções.

A clínica atende os convênios Omint Premium, SulAmérica Executivo e SulAmérica Prestige, além de pacientes particulares. Veja também o panorama completo das síndromes venosas abdominais que tratamos, incluindo síndrome de Nutcracker e varizes pélvicas. Se o que você tem são varizes comuns nas pernas — não relacionadas a essa compressão —, veja nosso guia sobre varizes.

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Sobre o autor

Prof. Dr. Igor Rafael Sincos é cirurgião vascular e endovascular, Doutor e Pós-Doutor pela Universidade de São Paulo (USP), com fellowship em Harvard Medical School. Médico — CRM-SP 117.876 · Cirurgia Vascular RQE 126.825 · Cirurgia Endovascular RQE 132.643. Atua no diagnóstico e tratamento das síndromes venosas abdominais em São Paulo.

Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Publicado e revisado em 2 de setembro de 2026.

FAQ

Perguntas frequentes

É a mesma compressão anatômica — a artéria ilíaca comum direita comprimindo a veia ilíaca comum esquerda contra a coluna. Em parte da literatura, os dois nomes são usados como sinônimos. Na nossa prática, reservamos 'May-Thurner' para a compressão ainda sem trombose e 'Cockett' para quando ela já trombosou ou deixou sequela pós-trombótica — mas o mecanismo de base é o mesmo, e o guia trata dos dois estados em conjunto.

Porque a compressão acontece exatamente no cruzamento entre a artéria ilíaca comum direita e a veia ilíaca comum esquerda — uma variação anatômica presente em boa parte da população. O retorno do sangue da perna esquerda fica dificultado nesse ponto, e o inchaço aparece desse lado. A perna direita, sem essa compressão, costuma ficar normal.

Não. Estudos de imagem em pessoas sem sintoma nenhum encontram algum grau de compressão da veia ilíaca esquerda em mais de um terço dos casos. Ter a variação anatômica não significa ter a doença — o que define a necessidade de tratamento é a presença de sintomas ou de trombose, não o achado isolado de imagem.

Começa pelo ultrassom Doppler venoso, que pode sugerir o diagnóstico. A confirmação e o planejamento do tratamento costumam usar angiotomografia ou angiorressonância, e, quando o cateterismo é indicado, o ultrassom intravascular (IVUS) — que mede a compressão por dentro da veia, com mais precisão do que qualquer exame externo.

Não necessariamente. Compressões sem sintoma relevante e sem trombose costumam apenas ser acompanhadas. Quando há sintomas importantes, trombose ou sequela pós-trombótica significativa, o stent venoso é o tratamento mais usado hoje — ele expande a veia comprimida e restaura o fluxo, por punção.

A gravidez já aumenta o risco de trombose venosa por conta própria, e a compressão anatômica da veia ilíaca esquerda soma a esse risco — por isso a maioria dos casos de trombose venosa profunda relacionada a essa síndrome ocorre em mulheres, e frequentemente do lado esquerdo. Vale investigar quando há inchaço muito assimétrico na gestação ou no pós-parto.

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