Aneurisma de aorta abdominal: por que é silencioso e quem deve fazer o ultrassom
Na maior parte dos casos o aneurisma de aorta abdominal não dá sintoma nenhum até atingir um tamanho grande — e é por isso que ele é perigoso: quando aparece o primeiro sinal, muitas vezes já é a ruptura. O exame que muda esse cenário é simples: um ultrassom de abdome, sem radiação, sem contraste e em poucos minutos. As diretrizes recomendam pelo menos um rastreamento em homens a partir dos 65 anos, especialmente quem fuma ou já fumou. Quem tem hipertensão, colesterol alto, doença cardiovascular ou parente de primeiro grau com aneurisma também deve conversar sobre o exame — inclusive mulheres.

Por Dra. Andrea Klepacz — Cirurgiã Vascular e Endovascular · CRM 128575 · RQE 51419
Revisado por Prof. Dr. Igor Rafael Sincos — Médico · CRM-SP 117.876 · Cirurgia Vascular RQE 126.825 · Cirurgia Endovascular RQE 132.643 · Doutor e Pós-Doutor pela USP · Fellowship em Harvard Medical School
Atualizado em 29 de agosto de 2026
O que é, exatamente, um aneurisma de aorta abdominal
A aorta é a maior artéria do corpo: sai do coração e desce pelo tórax e pelo abdome, distribuindo sangue para todos os órgãos. No abdome, ela tem em média cerca de 2 cm de diâmetro em um adulto.
Aneurisma é uma dilatação localizada dessa parede. Por convenção, fala-se em aneurisma de aorta abdominal quando o diâmetro chega a 3 cm ou mais. A parede dilatada não é apenas mais larga: ela é mais fina e mais frágil, e tende a continuar cedendo ao longo dos anos.
O problema não é a dilatação em si — é o que ela pode virar. Uma aorta muito dilatada pode romper, e a ruptura provoca uma hemorragia interna maciça. É por isso que a condição é frequentemente descrita como silenciosa: ela não avisa antes.
Por que ele não dá sintoma
A aorta abdominal fica no fundo do abdome, atrás dos órgãos e à frente da coluna. Ela cresce devagar, ao longo de anos, sem comprimir nada e sem inflamar nada. Não há dor, não há mudança no intestino, não há alteração na urina. O corpo simplesmente não tem como sinalizar.
Quando algum sintoma aparece, costuma ser inespecífico: uma dor lombar ou abdominal que vai e vem, uma sensação de pulsação no abdome — algo que a pessoa percebe deitada, sobretudo quem é magro. Nada disso é característico o bastante para levar alguém ao pronto-socorro, e nada disso aparece na maioria dos casos.
O resultado é que boa parte dos diagnósticos é incidental: o aneurisma aparece num ultrassom pedido para investigar a vesícula, numa tomografia feita por outro motivo, num exame de rotina. É um achado de sorte — e a proposta do rastreamento é justamente tirar a sorte da equação.
Os sinais que exigem pronto-socorro imediato
Se o aneurisma rompe, o quadro é súbito e inconfundível. Procure atendimento de emergência — não é caso de esperar ou de marcar consulta:
- Dor abdominal ou lombar intensa, de início súbito, muitas vezes descrita como uma dor que "rasga" e que irradia para as costas ou para a virilha.
- Queda de pressão, palidez, suor frio, desmaio ou sensação de que vai desmaiar.
- Massa pulsátil dolorosa no abdome, especialmente associada aos sinais acima.
Quem tem mais risco
O aneurisma de aorta abdominal é mais comum em homens acima de 65 anos, sobretudo entre quem tem histórico de tabagismo. O cigarro é o fator de risco mais forte e o mais modificável: ele agride diretamente a parede arterial e acelera a dilatação.
Os demais fatores que aumentam a chance de ter um aneurisma:
- Tabagismo atual ou passado — o fator isolado mais relevante.
- Idade acima de 65 anos.
- Sexo masculino: o aneurisma é várias vezes mais frequente em homens.
- História familiar: ter pai, mãe ou irmão com aneurisma de aorta aumenta o risco de forma independente.
- Hipertensão arterial e colesterol elevado.
- Doença aterosclerótica já conhecida — coronária, carotídea ou das artérias das pernas.
E as mulheres?
O aneurisma é bem menos frequente em mulheres, e por isso elas não entram nos programas de rastreamento populacional. Mas menos frequente não é o mesmo que irrelevante: quando a mulher tem aneurisma, a aorta dela é naturalmente mais fina, a dilatação se torna proporcionalmente mais avançada com um diâmetro menor, e o risco de ruptura para um mesmo tamanho é maior.
Na prática, isso significa que uma mulher com tabagismo, hipertensão ou história familiar de aneurisma merece a mesma conversa sobre o exame — só que a indicação passa a ser individual, discutida com o médico, e não uma regra automática por idade.
O exame que resolve: ultrassom de abdome
O rastreamento do aneurisma de aorta abdominal é feito com ultrassonografia abdominal. É um exame de poucos minutos, sem radiação, sem contraste, sem preparo complexo e amplamente disponível — inclusive na rede pública. Para essa finalidade específica, ele mede o diâmetro da aorta com precisão suficiente para decidir o que fazer em seguida.
As recomendações internacionais convergem em um ponto: homens a partir dos 65 anos que fumam ou já fumaram devem fazer pelo menos um ultrassom de rastreamento. A força-tarefa americana de prevenção (USPSTF) e as diretrizes europeias da ESVS trabalham com essa faixa; a diretriz brasileira da SBACV segue a mesma direção.
Vale sublinhar o "pelo menos um": um único exame normal aos 65 anos já reduz de forma importante a chance de morrer de ruptura de aneurisma ao longo da vida, porque um aneurisma que ainda não existe nessa idade dificilmente vai crescer o suficiente para romper depois. É um exame barato resolvendo um problema caro.
Achou um aneurisma. E agora?
Encontrar um aneurisma não significa cirurgia. Significa que agora existe um número para acompanhar — e o acompanhamento é definido pelo tamanho.
Aneurismas pequenos entram em vigilância ativa: ultrassons periódicos, em geral a cada 6 a 12 meses conforme o diâmetro, para medir a velocidade de crescimento. Em paralelo, entram as medidas que efetivamente retardam a evolução: parar de fumar — a intervenção que mais muda o ritmo de crescimento —, controlar a pressão arterial e tratar o colesterol.
Muitos pacientes atravessam anos de acompanhamento sem nunca precisar de tratamento. Outros chegam ao limiar de indicação e são operados de forma programada, com o caso estudado, a anatomia mapeada e a equipe preparada — cenário completamente diferente de uma cirurgia de emergência por ruptura.
Quando o tratamento entra em cena
O momento de tratar é definido principalmente pelo diâmetro — em linhas gerais, 5,5 cm em homens e cerca de 5,0 cm em mulheres —, além do crescimento rápido e do surgimento de sintomas. Os critérios completos, incluindo o que muda quando o aneurisma cresce rápido, estão detalhados em outro artigo deste blog: “Qual o tamanho de aneurisma que precisa operar?”.
Há duas vias de tratamento. O reparo endovascular (EVAR) é feito por punção nas artérias da virilha, sem abrir o abdome, com a colocação de uma endoprótese que reveste o trecho doente por dentro; depende de a anatomia do aneurisma permitir. A cirurgia aberta substitui o segmento dilatado por um enxerto. Nenhuma das duas é superior em todos os cenários: a escolha depende da anatomia, da idade e das condições clínicas de cada paciente.
O ponto central
O aneurisma de aorta abdominal é um bom exemplo de doença em que o desfecho depende menos do tratamento e mais do momento do diagnóstico. Roto, é uma emergência de altíssima gravidade. Detectado antes, vira um número em acompanhamento — e, quando chega a hora, um procedimento planejado.
Se você é homem, tem 65 anos ou mais e fumou em algum momento da vida, o ultrassom de abdome é uma conversa que vale ter na próxima consulta. Se tem história familiar de aneurisma, também — independentemente do sexo.
Guia completo relacionado:
Excelência no tratamento de aneurisma de aorta e outros vasos →Fontes e leitura complementar:
- Dra. Andrea Klepacz na Veja Saúde: "Aneurisma de aorta abdominal: a bomba-relógio silenciosa que pode ser detectada a tempo"
- USPSTF. Screening for Abdominal Aortic Aneurysm: Recommendation Statement. 2019.
- Wanhainen A, et al. ESVS 2024 Clinical Practice Guidelines on the Management of Abdominal Aorto-Iliac Artery Aneurysms.
- Diretrizes da SBACV — Aneurisma da aorta abdominal. J Vasc Bras. 2023.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico.
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Perguntas frequentes
Na maioria das vezes, não. A dilatação cresce lentamente e sem comprimir estruturas, por isso não gera dor. Quando há dor abdominal ou lombar súbita e intensa, o cenário a descartar com urgência é a ruptura.
As diretrizes recomendam pelo menos um ultrassom de abdome em homens a partir dos 65 anos, especialmente quem fuma ou já fumou. Pessoas com parente de primeiro grau com aneurisma de aorta devem discutir o exame com o médico, independentemente do sexo.
Para a aorta abdominal, sim: a ultrassonografia mede o diâmetro com precisão adequada para rastreamento e acompanhamento. A angiotomografia costuma entrar depois, quando o aneurisma se aproxima do tamanho de tratamento e é preciso planejar o procedimento.
Não. Nenhum medicamento reverte a dilatação. O que os remédios e a interrupção do tabagismo fazem é retardar o crescimento e reduzir o risco cardiovascular global — o que é relevante, mas não substitui o acompanhamento por imagem.
Há um componente familiar bem estabelecido. Ter pai, mãe ou irmão com aneurisma de aorta aumenta o risco de forma independente dos demais fatores, e é motivo suficiente para investigar mesmo abaixo dos 65 anos.
