Dissecção da aorta e aneurisma da aorta torácica: o que são, os sinais de alerta e como se tratam
A dissecção da aorta é um rasgo na camada interna da parede da maior artéria do corpo. O sangue entra pelo rasgo e abre um canal falso dentro da parede. É uma emergência: dor súbita e muito forte no peito, nas costas ou no abdome pede pronto-socorro na hora. O aneurisma da aorta torácica é outra coisa: a aorta do tórax fica dilatada, quase sempre sem sintomas, e costuma ser descoberta num exame feito por outro motivo. Nesse caso há tempo: o aneurisma é acompanhado com exames de imagem e tratado quando chega a um tamanho de risco.
Emergência médica
Dor súbita e muito forte no peito, nas costas ou na barriga, desmaio, fraqueza ou formigamento de um lado do corpo: ligue 192 (SAMU) ou vá a um pronto-socorro agora. Não espere para ver se passa.
Revisado por Prof. Dr. Igor Rafael Sincos — Médico | CRM-SP 117.876 | Cirurgia Vascular RQE 52745 | Angiorradiologia e Cirurgia Endovascular RQE 527451 · Publicado e atualizado em 12 de outubro de 2026
O que é a aorta torácica
A aorta sai do coração, sobe um pouco (aorta ascendente), faz uma curva no peito (arco aórtico), de onde saem as artérias da cabeça e dos braços, e desce pelas costas até o abdome (aorta descendente). Esse trecho dentro do tórax é a aorta torácica.
O que é uma dissecção da aorta?
A parede da aorta tem camadas. Na dissecção, a camada de dentro rasga, e o sangue entra entre as camadas e as separa ao longo do vaso. Forma-se então um segundo canal, o "falso lúmen", dentro da própria parede, separado do canal verdadeiro por uma lâmina fina.
O aneurisma é diferente. Nele a parede não rasga: ela se alarga aos poucos, como um balão. As duas condições podem andar juntas, porque uma aorta dilatada tem mais risco de rasgar, e uma aorta que já rasgou pode dilatar com o tempo.
Tipo A e tipo B: por que a classificação importa
Os médicos classificam a dissecção pelo trecho atingido:
- Tipo A: atinge a aorta ascendente, a parte que sai do coração. Precisa de cirurgia de emergência.
- Tipo B: não atinge a aorta ascendente. Começa em geral depois das artérias dos braços, na aorta descendente. O tratamento depende de haver ou não complicações.
Esquema fora de escala. Em vermelho, o trecho dissecado, com a lâmina que separa os dois canais; o ponto marca a entrada do rasgo.
Quais são os sintomas?
O sintoma principal é a dor: súbita, muito forte, já no máximo desde o começo. No grande registro internacional de dissecção (IRAD), mais de nove em cada dez pacientes descreveram dor intensa, muitas vezes "a pior da vida".
- A dor costuma ser no peito ou nas costas, às vezes no abdome.
- A descrição clássica é de dor "rasgando", mas o mais comum é ela ser descrita como aguda ou em pontada. Não sentir "rasgo" não descarta a dissecção.
- Pode haver desmaio, sinais de AVC (fraqueza, fala enrolada), dor ou frieza numa perna, falta de ar.
- A pressão pode ficar bem diferente entre um braço e o outro.
Por que é uma emergência?
Porque o risco aumenta a cada hora sem tratamento. No IRAD, entre os pacientes com dissecção do tipo A que não foram operados, cerca de um em cada quatro morreu nas primeiras 48 horas. Por isso a dor súbita e forte no peito ou nas costas pede pronto-socorro na hora, e não consulta marcada.
Como é feito o diagnóstico?
Na suspeita, o exame indicado é a angiotomografia: uma tomografia com contraste que mostra a aorta inteira em poucos minutos. Em algumas situações, o ecocardiograma feito pelo esôfago ou a ressonância são alternativas.
O aneurisma da aorta torácica sem sintomas costuma aparecer num ecocardiograma, numa tomografia ou num raio X do tórax feitos por outro motivo.
Como é o tratamento da dissecção?
- Tipo A: cirurgia de emergência, feita pela cirurgia cardiovascular. No nosso núcleo, esses casos são conduzidos em conjunto com as equipes de cirurgia cardíaca e cardiologia de referência dos hospitais onde atuamos.
- Tipo B sem complicações: o tratamento começa com remédios, na UTI. Eles baixam a pressão e os batimentos para aliviar a força do sangue sobre a parede da aorta. Depois, o paciente segue com remédios de uso contínuo e exames periódicos.
- Tipo B com complicações: quando há ruptura, falta de sangue em órgãos ou nas pernas, dor ou pressão que não cedem, ou crescimento rápido da aorta, o tratamento indicado é a endoprótese torácica (TEVAR). Ela é levada por dentro da artéria, por um cateter, em geral a partir da virilha, e fecha a entrada do rasgo por dentro. Em alguns casos sem complicação, mas com sinais de alto risco na tomografia, a endoprótese também pode ser considerada.
Aneurisma da aorta torácica: quando tratar?
O aneurisma torácico quase nunca dá sintomas. O objetivo do tratamento é evitar que ele rasgue ou se rompa. A decisão leva em conta o tamanho, a velocidade de crescimento, a causa e a saúde de cada pessoa, e é tomada em equipe. As medidas abaixo são as da diretriz americana de 2022 (ACC/AHA):
| Situação | Em geral, o tratamento é indicado a partir de |
|---|---|
| Aorta ascendente ou raiz | 5,5 cm (5,0 cm pode ser razoável em centro com equipe experiente) |
| Síndrome de Marfan | 5,0 cm (4,5 cm se houver outros fatores de risco) |
| Válvula aórtica bicúspide | 5,5 cm (5,0 a 5,4 cm com fator de risco adicional) |
| Aorta descendente | 5,5 cm, de preferência com endoprótese quando a anatomia permite |
| Aneurisma toracoabdominal | 6,0 cm (5,5 cm pode ser razoável em centro experiente) |
| Crescimento rápido (ascendente) | 0,5 cm em um ano, ou 0,3 cm por ano em dois anos seguidos |
Fonte: diretriz ACC/AHA 2022 de doenças da aorta.
Enquanto não é hora de tratar, o aneurisma é acompanhado com exames: o primeiro controle em 6 a 12 meses, para medir o ritmo de crescimento, e depois a cada 6 a 24 meses, conforme o tamanho.
Quem tem mais risco?
- Pressão alta mal controlada, o fator mais comum.
- Doenças hereditárias do tecido da aorta: síndrome de Marfan, Loeys-Dietz, Ehlers-Danlos vascular e síndrome de Turner. Cerca de 20% dos aneurismas torácicos têm causa genética ou familiar.
- Válvula aórtica bicúspide (com dois folhetos em vez de três).
- Aneurisma da aorta já conhecido e história de doença da aorta na família.
- Uso de cocaína.
- Gravidez em mulheres com doença hereditária da aorta, que precisam de avaliação antes de engravidar.
Um trauma forte, como num acidente de carro, também pode lesar a aorta torácica. É uma situação diferente da dissecção espontânea, com tratamento próprio.
Antibiótico e aorta: um alerta
Em 2018, a FDA (a agência de medicamentos dos Estados Unidos) e a agência europeia alertaram que antibióticos do grupo das fluoroquinolonas, como ciprofloxacino e levofloxacino, podem aumentar o risco de aneurisma e dissecção em pessoas de risco. Quem tem aneurisma ou já teve dissecção deve avisar o médico antes de tomar qualquer antibiótico. Não pare um remédio por conta própria.
Como é a vida depois de uma dissecção?
- Exames de controle: angiotomografia ou ressonância com 1, 6 e 12 meses e, se tudo estiver estável, uma vez por ano. Se a parte da aorta que ficou dissecada crescer até 5,5 cm, o tratamento é planejado.
- Pressão controlada: remédios de uso contínuo, com a meta definida pelo médico.
- Atividade física: caminhada, bicicleta e outras atividades aeróbicas leves a moderadas, de 30 a 60 minutos, três a quatro vezes por semana, são bem-vindas. O que se evita é musculação pesada, esforço de prender a respiração para fazer força e esporte de contato. Levantar muito peso prendendo a respiração faz a pressão disparar.
- Reabilitação: depois da cirurgia, a reabilitação cardiovascular ajuda na volta às atividades.
Minha família precisa fazer exame?
Sim, em muitos casos. A diretriz americana recomenda exame de imagem da aorta para pais, irmãos e filhos de quem teve dissecção ou tem aneurisma da aorta ascendente, mesmo sem outros casos na família. O teste genético entra quando há sinais de doença hereditária, como dissecção ou aneurisma antes dos 60 anos.
Recebeu um laudo com a aorta torácica dilatada, ou passou por uma dissecção?
O Núcleo de Doenças da Aorta faz a avaliação e o acompanhamento, em conjunto com o seu médico de referência.
Para o aneurisma no abdome, veja o guia de aneurisma da aorta abdominal.
Sobre o autor
Prof. Dr. Igor Rafael Sincos é cirurgião vascular e endovascular, Doutor e Pós-Doutor pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-graduação em Surgical Leadership pela Harvard Medical School. Médico — CRM-SP 117.876 · Cirurgia Vascular RQE 52745 · Angiorradiologia e Cirurgia Endovascular RQE 527451. Atua no diagnóstico e tratamento de doenças da aorta em São Paulo.
Referências
- Isselbacher EM, Preventza O, Hamilton Black J 3rd, et al. 2022 ACC/AHA Guideline for the Diagnosis and Management of Aortic Disease. Circulation. 2022;146(24):e334-e482.
- Harris KM, Nienaber CA, Peterson MD, et al. Early Mortality in Type A Acute Aortic Dissection: Insights From the International Registry of Acute Aortic Dissection. JAMA Cardiol. 2022;7(10):1009-1015.
- Pape LA, Awais M, Woznicki EM, et al. Presentation, Diagnosis, and Outcomes of Acute Aortic Dissection: 17-Year Trends From the International Registry of Acute Aortic Dissection. J Am Coll Cardiol. 2015;66(4):350-358.
- Evangelista A, Isselbacher EM, Bossone E, et al. Insights From the International Registry of Acute Aortic Dissection: A 20-Year Experience of Collaborative Clinical Research. Circulation. 2018;137(17):1846-1860.
- Dean JH, Woznicki EM, O'Gara P, et al. Cocaine-related aortic dissection: lessons from the International Registry of Acute Aortic Dissection. Am J Med. 2014;127(9):878-885.
- U.S. Food and Drug Administration. FDA warns about increased risk of ruptures or tears in the aorta blood vessel with fluoroquinolone antibiotics in certain patients. Drug Safety Communication, 20/12/2018.
- Medicines and Healthcare products Regulatory Agency (MHRA). Systemic and inhaled fluoroquinolones: small increased risk of aortic aneurysm and dissection. Drug Safety Update, 14/11/2018.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Vídeos do acervo da clínica, sem identificação de pacientes. Publicado e revisado em 12 de outubro de 2026.
Perguntas frequentes
Não. No aneurisma, a aorta se dilata aos poucos. Na dissecção, a camada interna da parede rasga de repente. Um pode levar ao outro.
Na maioria das vezes, não. O primeiro sinal é a dor súbita e forte. Por isso quem tem aneurisma ou fatores de risco deve fazer o acompanhamento com exames.
Não. A do tipo A precisa de cirurgia de emergência. A do tipo B sem complicações começa com remédios, e a endoprótese entra quando há complicações ou sinais de alto risco.
Um tubo de tecido com estrutura metálica, levado por dentro da artéria por um cateter, em geral a partir da virilha. Ele reveste a aorta por dentro. A indicação depende da anatomia de cada caso.
Pode e deve se mexer, com atividade aeróbica leve a moderada e pressão controlada. O que se evita é musculação pesada e esforço prendendo a respiração.
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