Mulheres com desejo gestacional podem fazer a embolização de artéria uterina?
Sim. A embolização das artérias uterinas preserva o útero e há gestações e nascimentos documentados em séries grandes. Numa coorte portuguesa com 359 mulheres que não conseguiam engravidar, 149 engravidaram e 131 tiveram filhos após o procedimento, com probabilidade de gravidez espontânea de 40,1% em dois anos. A miomectomia continua sendo excelente opção em cenários específicos — mas a embolização deixou de ser um caminho fechado para quem deseja gestação.

Por Prof. Dr. Igor Rafael Sincos — Médico · CRM-SP 117.876 · Cirurgia Vascular RQE 126.825 · Cirurgia Endovascular RQE 132.643 · Doutor e Pós-Doutor pela USP · Fellowship em Harvard Medical School
Atualizado em 29 de agosto de 2026
Por que essa pergunta gerou tanta confusão
Durante muito tempo, a resposta padrão foi um "não" categórico. As primeiras recomendações internacionais, do início dos anos 2000, listavam o desejo de engravidar como contraindicação relativa à embolização — não porque houvesse evidência de dano, mas porque ainda não havia evidência suficiente de segurança. Ausência de dados foi lida como dado negativo.
Duas décadas depois, o cenário mudou. Existem hoje coortes grandes, com seguimento longo, e revisões sistemáticas que reuniram dezenas de estudos. A pergunta continua legítima, mas a resposta ficou mais precisa — e bem mais favorável do que a de vinte anos atrás.
Nem todo mioma atrapalha a fertilidade
Antes de falar de tratamento, vale separar o que realmente interfere. Os miomas submucosos, que se projetam para dentro da cavidade uterina, são os que comprovadamente reduzem as chances de gravidez e aumentam o risco de perda gestacional. Os subserosos, que crescem para fora do útero, em geral não interferem. Os intramurais ficam num meio-termo, e o impacto depende de quanto deformam a cavidade.
Ou seja: a primeira pergunta não é "qual tratamento", e sim "esse mioma está mesmo atrapalhando?". Tratar um mioma que não interfere na fertilidade não aumenta a chance de engravidar — só expõe a paciente aos riscos de um procedimento.
O que mostra a coorte portuguesa
O maior conjunto de dados sobre gestação após embolização vem de Lisboa. Uma coorte do Hospital de São Luís com a Universidade Nova de Lisboa acompanhou 359 mulheres com miomas que não conseguiam engravidar, por uma mediana de quase seis anos, e publicou os resultados na revista Radiology em 2017.
Depois da embolização, 149 dessas mulheres engravidaram e 131 tiveram filhos — 150 bebês ao todo. Para 85,5% delas, era a primeira gestação da vida. A probabilidade de gravidez espontânea foi de 29,5% em um ano e 40,1% em dois anos; a de gravidez com nascimento vivo, 24,4% e 36,7% respectivamente.
É importante entender o desenho do estudo para dimensionar o achado: não se trata de mulheres com fertilidade normal que fizeram o procedimento. São mulheres que já não conseguiam engravidar antes dele.
Dois achados que contrariam o senso comum
O primeiro diz respeito justamente ao tipo de mioma mais temido nesse contexto: ter um mioma submucoso dominante associou-se a maior chance de gravidez espontânea após a embolização — o oposto do receio habitual. A leitura provável é que, nesses casos, o mioma era de fato a causa da dificuldade, e tratá-lo removeu o obstáculo.
O segundo é técnico. Em 160 das pacientes foi realizada a chamada embolização parcial, em que apenas os pequenos vasos que alimentam o mioma são ocluídos, preservando os vasos maiores, com o objetivo explícito de proteger a fertilidade. Nesse grupo, as complicações foram menores que na embolização convencional: 14,6% contra 23,1%.
E fora de Portugal?
Os resultados não são um caso isolado de um único serviço. Uma revisão sistemática com metanálise publicada na Cardiovascular and Interventional Radiology em 2020 reuniu 24 estudos e encontrou gestação em 40,5% das mulheres que desejavam engravidar após a embolização.
As taxas de perda gestacional e de complicações obstétricas descritas nessas séries ficaram próximas às da população geral de mesma faixa etária — um ponto relevante, porque a preocupação não era apenas engravidar, mas levar a gestação adiante com segurança.
Então a embolização é sempre a melhor escolha?
Não. E é importante dizer isso com a mesma clareza. A miomectomia — a retirada cirúrgica do mioma com preservação do útero — continua sendo uma excelente opção, especialmente diante de poucos miomas bem delimitados que deformam a cavidade uterina. Parte das diretrizes ainda a coloca como preferência nesse cenário específico, e há literatura comparativa favorável a ela em desfechos reprodutivos.
O que a evidência atual sustenta é mais modesto e mais útil: a embolização deixou de ser um caminho fechado. Ela preserva o útero, tem gestações e nascimentos documentados em série grande, e pode ser a melhor alternativa quando os miomas são múltiplos, quando a miomectomia seria uma cirurgia extensa, ou quando já houve cirurgia uterina prévia — situação em que operar de novo traz riscos adicionais.
Como decidir no seu caso
A decisão precisa envolver o ginecologista que acompanha você e considerar um conjunto de fatores, não apenas o mioma isolado: idade, reserva ovariana, há quanto tempo você tenta engravidar, número e posição exata dos miomas, e cirurgias uterinas anteriores.
O exame que melhor orienta essa conversa é a ressonância magnética, que mapeia com precisão quantos miomas existem, onde estão e como são irrigados. Chegar à consulta com esse mapa em mãos encurta muito o caminho até uma decisão bem fundamentada.
Guia completo relacionado:
Miomas uterinos? Existe uma solução sem cirurgia e sem cortes! →Fontes e leitura complementar:
- Pisco JM, et al. Spontaneous Pregnancy with a Live Birth after Conventional and Partial Uterine Fibroid Embolization. Radiology, 2017.
- Ghanaati H, et al. Pregnancy and its Outcomes in Patients After Uterine Fibroid Embolization: A Systematic Review and Meta-Analysis. Cardiovasc Intervent Radiol, 2020.
- Manyonda I, et al. Uterine-Artery Embolization or Myomectomy for Uterine Fibroids (FEMME trial). N Engl J Med, 2020.
- Guia completo: tratamento de mioma uterino — Endovascular São Paulo
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico.
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Perguntas frequentes
É uma preocupação legítima, e o risco existe mas é baixo, concentrado em mulheres acima dos 45 anos. Nas séries com mulheres mais jovens em idade reprodutiva, os marcadores de reserva ovariana se mantiveram estáveis após o procedimento. Esse ponto deve ser discutido individualmente, considerando sua idade.
Não há um prazo único estabelecido. Na prática, costuma-se aguardar alguns meses até que a redução dos miomas se estabilize e a menstruação normalize, com o momento definido em conjunto com o ginecologista. Na coorte portuguesa, a maior parte das gestações ocorreu nos dois primeiros anos.
Não necessariamente. Diferentemente da miomectomia, que pode deixar uma cicatriz na parede do útero e indicar cesárea em gestações futuras, a embolização não abre o útero. A via de parto é decidida pelo obstetra conforme a evolução da gestação.
Na convencional, os ramos das artérias uterinas que alimentam os miomas são ocluídos de forma ampla. Na parcial, apenas os pequenos vasos do mioma são bloqueados, preservando os vasos maiores, com o objetivo de proteger a irrigação do útero e a fertilidade. Na coorte portuguesa, a técnica parcial teve menos complicações.
